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Fantasia emperra adoção de um novo modelo ambiental

foto_penna_thumbnail5.jpgPara o presidente nacional do PV, José Luiz de França Penna, a exploração de recursos naturais ainda é cercada de uma falsa ilusão de perenidade. “Há uma idéia fantasiosa e megalômana de que se pode mudar o jogo a qualquer hora por força do capital”, diz Penna. Segundo ele, o plano nacional estratégico que o Brasil deve elaborar, por conta do Acordo de Bali, deve incluir “metas de defesa intransigente de suas reservas, ponto de partida para uma nova ordem ambiental”, e da qual o País deveria ser protagonista.

Este é um dos pontos que deverão ser abordados durante o 2º Global Greens, que acontece de 1 a 4 de maio de 2008, no Memorial da América Latina, em São Paulo. A rede unificada de partidos verdes e entidades sócio-ambientais foi criada em 2001, no encontro inaugural de Canberra, na Austrália. Nesse período o Brasil e o resto do mundo viram ocorrer uma sucessão de fenômenos relacionados às mudanças climáticas de conseqüências jamais vistas. Hoje há um consenso sobre a necessidade de reversão imediata no processo de contaminação da atmosfera. Ainda assim impera a lógica desenvolvimentista que levou o mundo a um beco sem saída.

Nesta entrevista, Penna faz um balanço geral da situação brasileira, aborda aspectos que deverão ser destacados no encontro do Global Greens e propõe uma mudança de posição do Brasil nos fóruns internacionais.

Qual é a expectativa para o Global Greens 2008?

Bom, esse é o nosso segundo encontro. O primeiro, (na Austrália, em 2001), serviu pra gente se organizar e definir princípios e ações que acabaram formalizados naquela que ficou conhecida como a Carta Verde de Canberra. Hoje o Global Greens é uma rede estruturada em quatro federações continentais, que juntas reúnem partidos verdes e organismos sócio-ambientais de 78 países. Por isso uma reunião desse universo, fora do âmbito do ONU, tem um caráter eminentemente político, mas também documental. Esperamos traçar um painel bastante atual e abrangente sobre o que está acontecendo ao redor do planeta. A pauta de discussões deverá girar em torno de três grandes blocos: mudanças climáticas, biodiversidade e governança verde. E esperamos poder contribuir com fortes subsídios para o plano que deverá vigorar a partir de 2012 com o fim do Protocolo de Kyoto, assim como os meios de como alcançar as metas preconizadas pela comunidade científica (65% na redução de poluentes até o meio do século, com base nos índices de 1990)… Enfim, a idéia é definir diretrizes para uma ação política mais efetiva sobre essas questões.

O que terá mudado nesses sete anos, desde o primeiro Global Greens, além do recrudescimento dos fenômenos climáticos?

Acho que mudou a percepção das pessoas em relação às questões ambientais. Hoje há um consenso científico que alimenta o debate. E aos poucos vai se disseminando a idéia de que algo deve ser feito, sob risco de se inviabilizar a vida no planeta e num futuro não muito distante. O capital também está mais sensível. Percebeu que investir num modelo baseado na sustentabilidade já não é mais uma variável secundária, mas questão de sobrevivência, embora essa ainda seja preocupação de uma elite. No Brasil o problema maior é essa lógica mercantilista que queima e devasta nossas florestas. Uma prática não só nefasta, suicida, como perdulária: um relatório recentemente elaborado pela ONU estima em US$ 10 bilhões anuais o ganho que o País teria com a preservação dessas áreas.

Qual é cenário que o PV deve apresentar na reunião do Global Greens? Se considerarmos os fenômenos climáticos extremos que têm ocorrido de cima a baixo no País, com reflexos no Pantanal, na Amazônia, no Nordeste com o agravamento da seca e do processo de desertificação; que eles são fundamentalmente resultado da ação humana, e que essa ação tende a se perpetuar, temos certamente um cenário de desolação. Mas o grande desafio é justamente a perspectiva de reversão desse processo. O País dispõe de um alto grau de complexidade e diversidade. Temos que apresentar alternativas para cada contexto sócio-ambiental. A questão da Amazônia deve ser um dos destaques principais da pauta do encontro, até por óbvia influência no quadro do planeta. Mas serão analisados também outros importantes ecossistemas. As opções energéticas que estão sendo adotadas e seu impacto, a degradação dos centros urbanos… São Paulo é um palco acabado para o encontro…

São Paulo é o retrato de uma mega-capital de terceiro mundo, de alta densidade populacional, que cresceu sem planejamento e cuja missão foi impulsionar o desenvolvimento do País em bases energéticas superadas e infra-estrutura deficiente. Vive por isso um terrível ciclo vicioso, assolado por eventos climáticos hoje os mais graves registrados hoje no País. São Paulo é a sexta capital mais poluída do mundo. 90% dessa carga de poluentes são emitidos pela frota de veículos. E a cada dia outros 900, mil veículos novos são despejados diariamente nas ruas. A despeito do caos crescente, as pessoas buscam saída em seus próprios meios de locomoção para se defender da ineficiência e precariedade do sistema de transporte. O diesel que move a frota de ônibus e caminhões, o grande vilão na história, é de baixíssima qualidade. O resultado é um impacto brutal nas condições ambientais e de saúde da população. Chega até 10% o índice de mortes na capital por causa da poluição. A questão de São Paulo passa prioritariamente pela definição de políticas públicas que tenham como principal eixo a variante ambiental. Investimentos em fontes limpas de energia e na melhoria do sistema de transportes serão decisivos a médio e longo prazos.

Na última assembléia geral da ONU Lula apresentou dados favoráveis ao combate à devastação da Amazônia.

Os números do segundo semestre vão na contramão: há uma retomada da derrubada da floresta, por conta do crescimento do agro-negócio, principalmente da atividade da pecuária de corte. E há ainda outros de pressão à vista, como a alta do preço da soja e o aumento da área cultivada de cana para produção do etanol. É bom lembrar que só nesse século o Brasil perdeu em florestas uma área equivalente aos territórios da Espanha e Portugal somados. As queimadas no País verificadas na última estação aumentaram quase 70% em relação ao ano passado. Os focos se alastraram por toda a Amazônia, consumiram extensas áreas de preservação ambiental. Boa parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, patrimônio natural da humanidade, foi reduzida a cinzas. E assim aconteceu com outras partes importantes do cerrado, com terrível dano à sua biodiversidade, com o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, com a Floresta Nacional de Carajás… E nessa o Brasil ocupa um vergonhoso quarto lugar entre os maiores emissores pela queima de seus próprios recursos. Inacreditável, mas real. Se considerarmos que a queima de áreas florestais representam até ¼ das emissões dos gases do efeito estufa, dá para imaginar o estrago que o País tem causado a si próprio e ao resto do planeta.

Qual é o balanço que sai da Conferência de Bali?

Não dá pra dizer que foi frustrante porque o grau de expectativa em relação ao avanço nas negociações era muito baixo. Acho que um aspecto positivo foi a posição européia, que forçou a barra ao aliar-se ao Grupo dos 77 e aprovar menção de que o período pós-Kyoto deva ter necessariamente comprometimento com metas de redução de emissões na base de até 40% até 2020 [com base nos níveis de 1990], conforme alerta do 4º Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), do ano passado. A aprovação do mapa do caminho, que traça o cenário e temas do período pós-Kyoto, foi uma solução diplomática de ordenar a discussão e dar uma satisfação à opinião pública, empurrando para Copenhagen, em 2009 (próxima COP), o chumbo grosso da questão, que são as metas compulsórias. No fundo, todos admitem a gravidade do problema, enquanto der pra postergar, melhor. São muitos interesses em jogo. O Brasil sai do encontro, como os demais emergentes, com o compromisso de estabelecer ações estratégicas mensuráveis de redução das emissões, com garantias de transferência de tecnologia pelos países desenvolvidos. O que põe pressão externa na posição titubeante do Brasil quanto à política ambiental, que deveria ser de vanguarda, mas patina no conservadorismo.

O governo brasileiro erra em resistir a adoção de metas de redução de poluentes em favor do crescimento?

Erra porque não consegue se diferenciar de países emergentes de mesmo potencial de crescimento como China e Índia. É uma estratégia inconsistente e prejudicial ao País porque retarda a execução de medidas emergenciais. Acho que compete ao Brasil liderar esse processo de transformação que está se formando. Tem recursos pra isso. Deve assumir a defesa de um modelo mais limpo, obrigando-se a atingir as metas preconizadas, e exigir reciprocidade. E internamente deixar clara sua convicção em modelos baseados na sustentabilidade e preservação. Alternativas sustentáveis viabilizadas agora levarão o governo brasileiro, num futuro próximo, a apresentar um quadro sensivelmente melhor do que os dados apresentados na ONU.

Tem chance prosperar a proposta do F8 (grupo de 8 países que detêm 80% das florestas tropicais do mundo), de reivindicar compensação dos industrializados pela preservação deu sua cobertura vegetal?

Bali sinalizou com incentivos para conter as emissões pelo desmatamento. Mas nem pensar em fundo específico destinado ao combate da devastação, como queria o Brasil. Há muita discussão a respeito e nenhuma ação. Há quem defenda o pagamento por essa preservação em troca do descompromisso de qualquer meta. Ou seja, é a chance de se adquirir legalmente o direito de poluir. Ainda existe certa visão ficcional e megalômana de que se pode mudar o jogo a qualquer hora por força do capital. E as negociações não avançam. Continua o jogo de empurra entre industrializados e emergentes sobre quem deve pagar a conta. E enquanto o Brasil defende seu direito de crescer e se desobriga do cumprimento de metas, extensas áreas florestais vão sendo consumidas pela ganância e a desinformação. Persiste a idéia fantasiosa sobre a perenidade da Amazônia, de nossas reservas naturais. Hoje temos meios de detectar por satélite os desmatamentos e contabilizá-los em campos de futebol, mas não temos como detê-los. O extrativismo criminoso e a expansão das fronteiras agro-pastoris continuam a abrir caminho impunemente mata adentro. E o País assiste a tudo impassível. É urgente a adoção de plano estratégico fundamentado em suas reservas como ponto de partida para uma nova ordem ambiental. O mapa do caminho para a emancipação passa por aí.

 

2 comentários em “Fantasia emperra adoção de um novo modelo ambiental”

  1. prof.oliva disse:

    Valeu Penna, você tem uma visâo madura sobre a Amazônia, quero tu com 120.000 votos para vereador.
    “Fernando Pessoa diz que tudo vale a pena
    São Paulo elegerá um vereador verde sem apostema. Eu quero tu na Camara, pois o meu eleito será Penna”

  2. Fabrini Fontes disse:

    Me entristeço por não votar nesta cidade para ajudar a eleger um dos únicos candidatos com propostas sensatas e objetivas. Uma visão diferente para a capital mais poluída do Brasil. Com mais informação e menos chutes, como se pode perceber nos atuais candidatos, principalmente à prefeitura, tenho a certeza de que lutará com todas suas forças para melhorar a qualidade de vida dos moradores desta mãe, São Paulo.

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