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Um dia na vida de um cidadão. Sem carro.

A supremacia do carro entre os paulistanos é absoluta. E na razão direta da sua incapacidade de reagir. Há um para cada dois habitantes. São seis milhões de automóveis em circulação. E quase outros 900 novos veículos são despejados diariamente na Capital, entre automóveis e motos. São eles, além da frota de caminhões e ônibus, os agentes responsáveis por mais de 90% de toda a poluição que cobre o céu de São Paulo. Com uma carga média tal que torna a cidade a sexta mais poluída do planeta.
José Luiz Penna

O Dia Mundial sem Carro, celebrado no dia 22/9, em mais de 40 países, é mais do que um apelo ao esforço comum. É a chance de refletirmos sobre uma série de coisas, incluindo a nossa condição de reféns, resultado de nossas opções e, fundamentalmente, da falta delas. A data foi instituída há pouco mais de uma década, por iniciativa de grupos franceses, justamente para pensarmos no modelo de mobilidade urbana de que dispomos. E a cada ano só parece aumentar nossa contradição: quanto mais investimos na individualidade e na privacidade de nossos deslocamentos, mais somos vítimas de seus efeitos.

Em São Paulo o cenário é desolador. O sistema de ônibus é precário, a malha metroviária insuficiente e não há, entre as capitais sul-americanas, lugar onde a tarifa de táxi seja exageradamente tão mais cara. Somados esses são fatores decisivos para que uma parcela significativa e crescente da população veja o transporte individual como a única opção viável.

Medidas restritivas, como o rodízio semanal de veículos, destinadas a impor um mínimo de racionalidade e prevenção ao sistema viário, sucumbem ao descrédito da população. As pessoas ainda preferem driblá-las, às vezes com a aquisição de um segundo ou terceiro veículo, arriscando-se a mergulhar diariamente no caos urbano, a depender do transporte público.

A supremacia do carro entre os paulistanos é absoluta. E na razão direta da sua incapacidade de reagir. Há um para cada dois habitantes. São seis milhões de automóveis em circulação. E quase outros 900 novos veículos são despejados diariamente na Capital, entre automóveis e motos. São eles, além da frota de caminhões e ônibus, os agentes responsáveis por mais de 90% de toda a poluição que cobre o céu de São Paulo. Com uma carga média tal que torna a cidade a sexta mais poluída do planeta.

Estudo do Instituto de Climatologia da USP indica que, se até 2020, nada for feito para estancar ou reduzir a emissão de poluentes a níveis aceitáveis, São Paulo poderá sofrer efeitos tão devastadores quanto os enfrentados por Vila Parisi, em Cubatão.

É pouco mais de uma década para revertermos uma situação que já é alarmante. É só olhar a elevação nos índices de doenças cárdio-pulmonares associadas à baixa qualidade do ar. Mas essa é só uma das faces mais terríveis desse moto perpétuo. O impacto é brutal em todas as direções.

O tráfego vertiginoso de veículos contribui ainda com uma mortandade insana. São 34 mil mortos e mais um número dez vezes maior em feridos em acidentes de trânsito por ano nas ruas e estradas do País. O custo social disso é estimado anualmente em R$ 28 bilhões, incluindo a assistência médica às vítimas, as perdas materiais e a redução na produtividade – o que corresponde a uma parcela de mais 60% de tudo o que o País gasta com saúde. É uma contabilidade assombrosa.

A esse pesadelo somam-se perdas de outras ordens, como as incontáveis horas paradas ao volante, o desperdício de combustível, a queda na arrecadação, além de um incalculável, e mesmo irremediável, prejuízo ao meio-ambiente.

Nesses dez anos houve sim um avanço quanto à compreensão do conceito de mobilidade urbana e qualidade de vida. Em várias capitais européias, a bicicleta tem sido progressivamente incorporada sistema público de transporte. E o compromisso com a redução de poluentes passa a fazer parte do cotidiano.

Em São Paulo, algumas ações têm sido postas em prática pelo secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente Eduardo Jorge, do Partido Verde. Entre elas, a criação de ciclovias e bicicletários, destinadas a servir de conexão a outros meios de transporte, principalmente aos trabalhadores em seu deslocamento diário. A inspeção veicular obrigatória, que começa a vigorar, é outra medida que deve contribuir enormemente para a melhoria das condições do ar na cidade.

Mas isso é o mínimo que podemos desejar. Por isso nesse Dia Mundial Sem Carro é vital que a sociedade reflita sobre os caminhos e os meios pelos quais devemos prosseguir em direção ao futuro. E exigir políticas públicas que tenham como ponto de partida a variante ambiental. Que os órgãos governamentais responsáveis adotem fontes renováveis e limpas e que a formulação de combustíveis fósseis vigentes siga rigorosamente padrões compatíveis com a preservação da saúde humana — na contramão, a Petrobrás já adiantou que não tem condições de distribuir diesel mais limpo a partir de janeiro do ano que vem, conforme determinado pelo Conama, embora tenha tido prazo de seis anos para isso.

Em conseqüência disso, lamentavelmente continuaremos a respirar diesel com teor de enxofre até 200 vezes maior do que o aceito no Primeiro Mundo, caso nada seja feito. Que o poder público, enfim, promova a melhoria e eficiência do transporte coletivo, facilite a circulação de pedestres e ciclistas e incentive a prática de uma cultura cidadã.

E que a sociedade também faça a sua parte, buscando e aceitando soluções que confiram maior solidariedade e contribuam para a preservação do espaço em que vivemos. Fora isso, pelo que temos visto, não há alternativa.

José Luiz Penna, 62, músico, ator, compositor e cronista, é presidente nacional do Partido Verde.

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